Quando as palavras dizem tudo, menos o que se quis dizer

Comunicação, literalidade e masking no autismo de nível 1 de suporte Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP Imaginemos a seguinte cena: uma reunião monótona de trabalho termina, as pessoas se levantam, e alguém comenta: “Puxa, que apresentação ‘interessante’.” Todos na sala entendem que o elogio não é elogio. Ninguém…

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Comunicação, literalidade e masking no autismo de nível 1 de suporte

Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Imaginemos a seguinte cena: uma reunião monótona de trabalho termina, as pessoas se levantam, e alguém comenta: “Puxa, que apresentação ‘interessante’.” Todos na sala entendem que o elogio não é elogio. Ninguém precisou pensar no assunto; a interpretação chegou pronta, sem esforço, como quem reconhece uma cor. Mas uma pessoa na sala ouviu exatamente aquilo que foi dito, isto é, que a apresentação foi interessante, e agradeceu com sinceridade. No dia seguinte, descobre que passou por ingênua, ou pior, por sarcástica ela mesma.

Cenas dessa natureza se repetem, com variações, milhares de vezes ao longo de uma vida. As causas dessas situações são o objeto deste artigo.

“Leve” não é a palavra certa

O Transtorno do Espectro Autista é classificado em três níveis, conforme a intensidade do suporte que a pessoa necessita. O nível 1, que no passado era chamado, de modo impreciso, de Síndrome de Asperger, é descrito como de suporte “leve”. Este adjetivo tem causado um estrago considerável.

O que a classificação mede é a quantidade de apoio externo que a pessoa requer para funcionar, não a quantidade de esforço interno que ela despende para parecer não necessitar de apoio algum. São coisas muito diferentes. Alguém pode ter um vocabulário amplo, formação universitária, emprego qualificado, conversa agradável e, ao mesmo tempo, chegar em casa às sete da noite completamente esgotado por ter passado o dia todo tendo de decifrar conscientemente tudo aquilo que os demais decifram sem perceber.

É justamente essa a situação que torna o nível 1 tão facilmente incompreendido, inclusive por profissionais. Quando a linguagem funciona bem na superfície, presume-se que tudo funcione bem por baixo. Mas justamente não é o que acontece.

O que é “pragmática”, afinal

Os linguistas dividem o estudo da linguagem em camadas. A gramática cuida da forma das frases; o vocabulário, do significado das palavras; e a pragmática cuida daquilo que as pessoas realmente querem dizer quando falam, o que quase nunca coincide com o que as palavras, por si mesmas, significam.

Um exemplo clássico: alguém entra em uma sala e diz “está frio aqui.” A frase, em si, é uma observação sobre a temperatura. Mas nem sempre é isso o que está sendo comunicado. Dependendo do contexto, pode ser um pedido para fechar a janela, uma crítica ao anfitrião, um convite para sair dali, uma tentativa de puxar conversa ou até mesmo uma observação sobre o humor das pessoas. Descobrir qual dessas coisas está em jogo exige combinar, em frações de segundo, quem fala, onde, com que tom, com que história em comum, e o que essa pessoa provavelmente quer.

Pessoas neurotípicas fazem esse cálculo o tempo todo e não têm consciência de fazê-lo. Para muitas pessoas autistas, ele não acontece automaticamente. Pode acontecer, e frequentemente acontece, com notável precisão, mas por via deliberada, analítica e lenta. E conversa é uma atividade que não pode esperar.

Por que o significado literal vence

Há várias explicações propostas, e elas não competem entre si: provavelmente descrevem partes distintas do mesmo fenômeno.

A leitura de mentes não é automática. Nos anos 1980, Simon Baron-Cohen, Alan Leslie e Uta Frith propuseram um experimento que se tornou célebre. São apresentadas duas bonecas a uma criança, Sally e Anne. Sally guarda uma bola em uma cesta e sai da sala. Anne, aproveitando a ausência, transfere a bola para uma caixa. Sally volta e pergunta-se à criança: onde Sally vai procurar a bola?

A resposta correta é “na cesta”, porque Sally não viu a mudança e ela mantém, portanto, uma crença falsa. A maioria das crianças de quatro anos acerta. Na pesquisa original, a maioria das crianças autistas respondeu “na caixa” onde a bola de fato estava. Essa capacidade de sustentar mentalmente uma versão do mundo que se sabe ser falsa, mas que outra pessoa acredita, recebeu o nome de teoria da mente.

Vale registrar que essa explicação foi muito revista desde então. Pesquisas posteriores mostraram que os testes clássicos dependiam bastante de habilidade linguística, que os resultados nem sempre se replicam, e que o desempenho nessas tarefas não é um preditor confiável do funcionamento social real. A ideia de uma “cegueira mental” absoluta não se sustenta. O que permanece sustentável nessa teoria é mais modesto mas também mais útil: a atribuição de intenções alheias, nesse perfil, tende a exigir esforço consciente em vez de ocorrer de forma espontânea.

Atenção aprofundada e não amplificada. Uma segunda linha de explicação observa que o processamento autista tende a privilegiar o detalhe sobre o conjunto. Frith e Happé chamaram isso de coerência central fraca. Uma formulação relacionada, o monotropismo, descreve um estilo de atenção que aloca muitos recursos a poucos canais de cada vez em vez de espalhar-se difusamente em muitos canais.

Ora, conversar é exatamente a tarefa mais hostil a esse formato monotrópico. Uma conversa exige acompanhar, ao mesmo tempo, o conteúdo das palavras, o tom de voz, a expressão facial, a postura corporal, a história compartilhada e a intenção provável. Um sistema que funciona bem aprofundando-se em um canal de cada vez fica em desvantagem estrutural num ambiente que exige superficialidade simultânea em seis canais.

O contexto pesa menos na balança. Uma terceira explicação, mais recente, propõe que o cérebro autista dá menos peso à expectativa prévia e mais peso ao dado imediato. Traduzindo para a conversa: se a expectativa contextual pesa pouco, o significado literal, que é o dado imediato recebido, permanece prioritário e primordial. O mundo, nos termos dos pesquisadores Elizabeth Pellicano e David Burr, torna-se objetivamente “real demais”.

E há ainda o custo da operação. Entender ironia exige manter o sentido literal disponível na memória, construir uma interpretação alternativa, testá-la e então inibir a primeira em favor da segunda. São várias operações simultâneas. Quando essas funções de coordenação, planejamento, memória de trabalho, inibição e flexibilidade, trabalham com menos folga, o indivíduo simplesmente não dá conta de tudo.

Metáforas, ironia e piadas

Nem toda linguagem figurada oferece a mesma dificuldade, e a diferença é instrutiva. Francesca Happé demonstrou, em 1993, que metáforas e ironia ocupam degraus distintos. Entender “coração de pedra” exige perceber que características de um domínio (a dureza da pedra) foram transferidas para outro (a afetividade humana), o que é exigente, mas ainda é uma operação que trabalha com os significados. Já entender ironia exige algo a mais: perceber que o falante quer que eu perceba que ele não acredita no justamente naquilo que ele está dizendo. É um degrau superior na dificuldade da operação.

Na prática quotidiana, isso significa que expressões figuradas consagradas, aquelas que se pode aprender como se aprende o vocabulário, costumam ser assimiladas sem grande problema. “Quebrar o galho”, “estar com a corda no pescoço”, “fazer tempestade em copo d’água”: são itens de dicionário. O problema aparece nas figuras novas, improvisadas na hora, ausentes no repertório linguístico da pessoa.

E o problema se agrava ainda mais com o sarcasmo. Convém aqui distinguir dois casos que a literatura às vezes mistura. A ironia amistosa entre amigos, dita com sorriso e entonação carregada, é relativamente acessível: os sinais estão lá, bem expressos, e podem ser aprendidos. Já o sarcasmo hostil dito em tom neutro, com o rosto imóvel (aquele “que apresentação interessante” da abertura do texto) é quase indecifrável. E note-se o drama da situação: é exatamente o caso mais difícil que carrega a maior punição social se for mal interpretado.

O humor funciona de modo semelhante. Piadas que dependem de trocadilhos ou de lógica geralmente são apreciadas, e, não raramente, com entusiasmo. Piadas que dependem de sustentar duas leituras incompatíveis ao mesmo tempo, ou de perceber que alguém no relato entendeu a situação errado, são mais exigentes. Muitas pessoas autistas relatam entender a piada bem depois, decifrada por análise, três ou quatro segundos após o riso alheio. Sabe-se agora por que é engraçado, mas o momento já passou. É a experiência de estar sempre um compasso atrás na música.

O que o corpo diz sem falar

Existe um número largamente difundido segundo o qual 65% (ou 93%, conforme a versão) da comunicação seria não verbal. Convém desconfiar deste dado pois vem de experimentos antigos e restritos, e esse tipo de generalização não é suportadas pelos estudos mais recentes. Mas o ponto de fundo não depende da estatística. Rosto, olhar, gesto, postura e tom de voz carregam dados indispensáveis, e é exatamente aí que se concentram as dificuldades mais expressivas.

O rosto. As emoções básicas, alegria, tristeza, raiva, costumam ser reconhecidas sem maior problema. As dificuldades aparecem nas emoções compostas e ambíguas, como o constrangimento, o desprezo, a decepção contida, aquela expressão que diz “estou ouvindo, mas discordo”. Enfim, justamente as que mais importam socialmente.

O olhar. Estudos com rastreamento ocular mostram que pessoas autistas tendem a olhar menos para a região dos olhos, que é, infelizmente, onde se concentra a informação emocional mais fina. Aqui cabe uma correção importante daquilo que se tem no senso comum: evitar o olhar não é desinteresse, desonestidade ou falta de educação. Relatos consistentes descrevem o contato visual sustentado como fisicamente desconfortável e cognitivamente caro. Forçá-lo costuma reduzir a compreensão, porque consome os recursos que estavam sendo usados para ouvir. Muita gente entende melhor olhando para o lado, e é tratada como grosseira por isso.

A voz. As variações de tom, ritmo e ênfase, a prosódia, carregam boa parte do sentido. A mesma frase, “você vai mesmo fazer isso”, pode ser pergunta, advertência, incredulidade ou ameaça, conforme a modulação prosódica. Quando essa camada é processada com dificuldade, resta o texto puro, e o texto puro é insuficiente.

E tudo isto ao mesmo tempo. No fim das contas, o ponto de maior fragilidade não é nenhum canal isolado, mas a fusão de todos eles num único juízo, que deve ser realizado sob a pressão de tempo e sem direito a revisão. Isso explica por que festas, reuniões, almoços de família e celebrações produzem um cansaço visto muitas vezes como desproporcional ao evento. Mas não foi o evento; foi uma sessão intensiva e extenuante de análise e interpretação realizada sob pressão constante.

Aquilo que não foi dito, mas se esperava que fosse entendido

O filósofo Paul Grice observou que a conversação funciona porque presumimos uma cooperação mútua: dizemos o necessário, na hora certa, de modo relevante. Quando alguém pergunta “você sabe que horas são?”, a resposta cooperativa é dizer as horas e não dizer “sei”.

Essa é, aliás, a piada que mais frequentemente se faz sobre pessoas autistas e que descreve um fenômeno real, embora de forma caricata. Há uma tendência a responder à pergunta que foi feita, e não à que estava implícita. O resultado é uma informação tecnicamente correta e conversacionalmente deslocada.

Tomemos outros dois exemplos, mais sutis:

  • Quando alguém diz “alguns alunos entregaram o trabalho”, presume-se automaticamente que nem todos entregaram, embora, em rigor lógico, “alguns” não exclua “todos”. Essa inferência automática, que os linguistas chamam de implicatura escalar, tende a não ocorrer sozinha.
  • Quando o chefe diz “seria bom revisar esse relatório”, isso normalmente é uma ordem apresentada como sugestão. Interpretá-la como sugestão genuína é até uma leitura possível do ponto de vista do português, mas uma interpretação desastrosa para a relação trabalhista.

Some-se a isso a lentidão documentada na antecipação do que virá a seguir em uma frase. Conversar fluentemente depende de prever, e a previsão é o que torna a conversa uma operação relativamente fácil e simples. Quando ela opera mais lentamente, a compreensão continua possível, mas passa a custar uma atenção deliberada, sustentada e intensa. E esse custo se acumula ao longo do tempo e se torna um fator desgastante emocional e fisiologicamente.

Uma nota sobre o cérebro

Estudos de neuroimagem encontraram, com razoável consistência, dois achados relevantes. O primeiro é que as regiões associadas à atribuição de estados mentais, sobretudo a região frontal medial e a junção entre os lobos temporal e parietal, mostram uma ativação reduzida nas tarefas que exigem inferir a intenção alheia. O segundo, e talvez mais interessante, é uma diferença no padrão de conectividade: a comunicação entre áreas distantes do cérebro tende a ser menos eficiente, ao passo que o processamento local não somente é preservado, como chega a ser ainda mais eficiente. A diferença se acentua justamente nas tarefas que exigem integrar informação complexa.

Note-se que isso combina bem com tudo aquilo que foi descrito acima. Um sistema excelente em processar profundamente cada parte, e menos eficiente em relacioná-las e interpretá-las com celeridade, é precisamente um sistema que vai bem em análise mas mal em conversa de corredor.

Há um dado especialmente elegante: quando se comparam violações de significado (“o café estava quadrado”) com violações de adequação social, o cérebro autista responde de modo atípico apenas às segundas. A camada semântica encontra-se intacta. É a camada pragmática que o distingue.

O masking

Diante de tudo isso, muitas pessoas autistas desenvolvem, quase sempre sem orientação de ninguém, um repertório de estratégias para parecer que nenhum destes problemas disso está acontecendo. Chama-se camuflagem social ou masking, e os pesquisadores Laura Hull e seus colegas a definiram como a divergência entre o que a pessoa apresenta em público e o que ela experimenta por dentro.

Na prática: estudar expressões faciais em filmes e copiá-las; decorar roteiros para situações previsíveis (“como se comportar em um velório”, “o que se diz num aniversário”); desenvolver deliberadamente protocolos sociais para serem aplicados mecanicamente em situações semelhantes; sustentar contato visual apesar do desconforto; ensaiar conversas antes de tê-las; e suprimir movimentos repetitivos autorregulatórios, como balançar, girar objetos, batucar, que na verdade ajudam a regular a sobrecarga cognitivo-emocional.

O curioso é que funciona. Funciona bem o bastante para adiar diagnósticos por décadas, especialmente em mulheres e indivíduos com Altas Habilidades/Superdotação (a Dupla-excepcionalidade AH-TEA), que apresentam níveis consistentemente mais altos de camuflagem. Mas o preço é alto, e vem por três vias.

Primeira via: a máscara falha de modos sutis. Copiar a forma de um comportamento sem ter acesso intuitivo à sua função gera desencontros dosimétricos. O aperto de mão dura um segundo a mais. O contato visual deliberado fica fixo e vagamente invasivo. O sorriso aprendido como “apropriado em conversas” acaba por aparecer durante discussões graves. O comportamento fica próximo o bastante do modelo para criar expectativa, e diferente o bastante para gerar desconforto: uma espécie de uncanny valley (vale da estranheza) social, em que o interlocutor percebe que algo está errado sem conseguir dizer o quê, e reage com desconfiança em vez de curiosidade.

Um estudo de Noah Sasson e colaboradores, de 2017, mostrou isso de maneira quase desconcertante: observadores formavam julgamentos desfavoráveis sobre adultos autistas em exposições de poucos segundos, e declaravam menor disposição de conviver com eles. Mas quando se apresentava apenas a transcrição do que havia sido dito, sem imagem e sem voz, o julgamento negativo desaparecia. Ou seja: o que estava sendo penalizado não era o conteúdo. Era o estilo.

Segunda via: mascarar consome o que falta. Enquanto a pessoa se concentra em manter o olhar adequado, perde parte do que está sendo dito. Enquanto modula o tom da própria voz, ele negligencia o conteúdo. Instala-se um círculo vicioso: quanto maior o empenho em parecer neurotípico, maior a chance de errar e se mostrar neurodivergente. Os pesquisadores Lucy Livingston, Punit Shah e Francesca Happé chamaram isso de compensação disfuncional: a estratégia adotada para melhorar o funcionamento social acaba por prejudicá-lo.

Terceira via: o esgotamento. A camuflagem está associada a níveis mais altos de ansiedade e depressão. E há um fenômeno específico, descrito por Dora Raymaker e colegas a partir de relatos de adultos autistas, que recebeu o nome de esgotamento autista (autistic burnout): exaustão profunda, perda temporária de habilidades que já estavam consolidadas, inclusive a fala, em alguns casos, e aumento acentuado da sensibilidade sensorial.

A distinção entre esgotamento autista e depressão importa muito, e é frequentemente perdida. O primeiro responde a redução de demanda social e sensorial: férias reais, silêncio, dispensa de obrigações de convívio. A segunda não responde do mesmo modo. Tratar um como se fosse o outro prolonga desnecessariamente o sofrimento, e é, infelizmente, um erro comum.

Quando a inteligência não resolve

Chama-se dupla excepcionalidade a coexistência de altas habilidades com uma condição que demanda suporte. Pessoas com TEA e alto desempenho intelectual costumam construir sistemas compensatórios notavelmente sofisticados: catalogam convenções sociais, deduzem regras por observação, montam verdadeiros algoritmos para cada tipo de situação.

Poder-se-ia supor que isso resolve o problema. Não resolve, e a razão é interessante.

Primeiro, o tempo. Aplicar conscientemente um sistema de regras é mais lento que reagir intuitivamente. Frações de segundo bastam para quebrar o ritmo de uma conversa e produzir uma impressão de resposta “ensaiada” ou ligeiramente artificial, que gera, por sua vez, mais desconfiança, não menos.

Segundo, a lucidez. A alta capacidade analítica, aplicada às próprias interações, permite perceber com nitidez dolorosa o instante exato em que algo deu errado, reconstituir o que deveria ter sido feito, identificar o padrão da falha e, apesar de tudo isso, não conseguir executar diferentemente da próxima vez. Compreender o próprio tropeço em alta resolução não confere automaticamente ao indivíduo autista a capacidade de evitá-lo. Descreveu-se esse estado como uma espécie de paralisia analítica: a hiper-consciência da dificuldade amplifica a ansiedade, e a ansiedade degrada ainda mais o desempenho.

Terceiro, o padrão exigido. A pessoa constrói, a partir da observação inteligente, um modelo daquilo que deveria ser o desempenho social correto, e passa a se cobrar para alcançá-lo. Como o modelo é derivado da compreensão intelectual e não de capacidade executável, a falha acaba se tornando sistemática. Donde o perfeccionismo que se volta contra o próprio sujeito, e o sentimento persistente de inadequação em alguém que, observado de fora, parece plenamente adaptado.

Não surpreende, portanto, que estudantes com esse perfil relatem índices de ansiedade e depressão consideravelmente mais altos tanto nos superdotados quanto nos autistas sem superdotação. Estão na pior das duas posições: dificuldades reais, e nenhuma delas visível o bastante para que seja fornecido apoio.

O custo da diferença

Na escola, dificuldades pragmáticas aumentam de modo expressivo a probabilidade de bullying, pois que a criança que não percebe quando está sendo provocada acaba por ser um alvo conveniente. No trabalho, figuram entre as principais barreiras ao emprego estável: instruções tomadas ao pé-da-letra, hierarquias informais não percebidas, política de escritório indecifrável. Não é raro encontrar pessoas com qualificação técnica muito superior à da função que ocupam.

Nas amizades, relatam-se relações de menor reciprocidade e maior vulnerabilidade à manipulação, já que a dificuldade em detectar uma intenção oculta é, evidentemente, também uma dificuldade em detectar uma má intenção. Nos relacionamentos afetivos, percebe-se obstáculos tanto na formação quanto na manutenção do vínculo.

E, por fim, há a saúde mental que deve ser considerada. Adultos autistas apresentam um risco significativamente elevado de desenvolver um sofrimento psíquico grave. E há aqui um dado que merece a atenção de todos aqueles que convivem, educam ou acompanham pessoas nessa condição: as experiências de aceitação por parte do ambiente estão associadas a desfechos melhores para a saúde mental, ao passo que as experiências de camuflagem estão associadas a desfechos consideravelmente piores. Isso desloca uma parte decisiva da responsabilidade do indivíduo para o meio em que ele habita.

O que pode ajudar

Em 2012, o pesquisador Damian Milton, ele próprio autista, propôs uma reformulação simples e de consequências consideráveis, que chamou de problema da dupla empatia. A falha de comunicação entre pessoas autistas e neurotípicas, argumentou, é recíproca. Ambos os grupos têm dificuldade em compreender o outro. No entanto, apenas um deles, historicamente, foi descrito como deficitário.

A hipótese recebeu um confirmação experimental notável em 2020: quando se transmite uma informação em cadeia, como no telefone sem fio, a transmissão é igualmente eficiente entre pessoas autistas e entre pessoas neurotípicas. A perda acentuada só aparece nas cadeias mistas. O problema, portanto, não é um déficit unilateral; é uma incompatibilidade entre duas neurofisiologias.

Disso decorre que treinar o interlocutor é tão legítimo quanto treinar a pessoa autista. E as medidas que se mostram mais eficazes são extremamente simples:

  • Dizer o que se quer dizer. “Você poderia fechar a janela?” funciona melhor que “Nossa, que gelo.” Pedido direto não é grosseria; é clareza.
  • Sinalizar a ironia, ou simplesmente explicá-la depois, sem constrangimento, “era brincadeira, desculpa”.
  • Não exigir contato visual como prova de atenção. Muita gente ouve melhor olhando para outro lugar.
  • Dar tempo de resposta. A pausa de três segundos não é desinteresse nem falta do que dizer; é, simplesmente, o processamento sendo realizado. Preenchê-la interrompe o raciocínio e obriga o interlocutor autista a recomeçar.
  • Comunicar uma informação importante por escrito, em vez de ser apenas expressa oralmente de passagem.
  • Perguntar em vez de presumir, quando algo na reação parecer estranho. Na esmagadora maioria das vezes, a intenção era boa e a execução apenas diferente.
  • Permitir o unmasking. Uma pessoa que possa passar algumas horas por semana sem se camuflar recupera sua capacidade comunicativa para as demais situações.

Ao fim

As dificuldades de comunicação pragmática no autismo de nível I são reais, têm bases cognitivas e neurobiológicas identificáveis, e produzem efeitos importantes sobre a escola, o trabalho, a vida afetiva e a saúde. Não são frescura, não são má vontade, não são falta de educação, e, sobretudo, não se resolvem com mero esforço, pela simples razão de que o esforço já vem sendo feito, em quantidade que ninguém vê.

Ao mesmo tempo, muitas dessas dificuldades diminuem sensivelmente quando o ambiente coopera. E cooperar, aqui, custa pouco: exige sobretudo abandonar a suposição de que a comunicação indireta é a forma natural e única da linguagem humana.

Quem entende literalmente não entendeu errado. Entendeu o que foi dito. Cabe também a quem fala a tarefa, nada extraordinária, de dizer o que pretende.

Quatro bons estudos para quem quiser ir além

Baron-Cohen, Leslie & Frith (1985) — “Does the autistic child have a ‘theory of mind’?” O experimento de Sally e Anne, publicado na revista Cognition. É o artigo que fundou o campo de estudo e, embora suas conclusões tenham sido muito revistas desde então, continua sendo o ponto de partida obrigatório para entender de onde veio a compreensão de que autismo tem a ver com leitura das intenções. Estudo curto e perfeitamente legível pelos não especialistas.

Happé (1993) — “Communicative competence and theory of mind in autism” É p estudo que conectou essa ideia à linguagem do dia a dia, mostrando que a metáfora e a ironia possuem graus distintos de dificuldade. É a leitura mais útil para quem quer entender especificamente a questão da literalidade: por que certas figuras de linguagem são compreendidas sem dificuldade e outras não.

Hull e colaboradores (2017) — “Putting on my best normal” Estudo qualitativo, construído a partir das narrativas dos próprios participantes e que transformou a camuflagem social de relato anedótico em objeto real de pesquisa. Descreve as técnicas, as motivações e os custos da camuflagem com uma riqueza de detalhes que nenhum resumo consegue alcançar. Indispensável para compreender os adultos, e em especial as mulheres autistas.

Milton (2012) — “On the ontological status of autism: the ‘double empathy problem” Um ensaio de cinco páginas que reorientou boa parte do campo de estudo da pragmática no autismo. Escrito por um pesquisador autista, propõe que a falha de comunicação é mútua, e não unilateral, tese esta depois confirmada experimentalmente por Crompton e colaboradores no ano de 2020. Leitura curta e de efeito duradouro sobre o modo como se pensa o assunto.

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