
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Flores para Algernon, de Daniel Keyes. Publicado como conto em 1959 e expandido em romance em 1966. Edição brasileira: Aleph, 2018, tradução de Luisa Geisler.
Flores para Algernon não é, no fundo, a história de um homem que ganha inteligência, é a história de um homem que busca a sabedoria e só começa a encontrá-la, de modo imperfeito, quando a inteligência já o está deixando. E é justamente por isso que o livro permanece incômodo: ele separa, com uma nitidez rara, aquilo que a cultura contemporânea insiste em confundir, inteligência e sabedoria, desempenho cognitivo e dignidade ontológica.
O enredo em poucas linhas
Charlie Gordon tem trinta e dois anos e uma deficiência intelectual quando é escolhido para uma cirurgia experimental que promete triplicar seu QI, sendo o mesmo procedimento já testado, com aparente sucesso, no rato de laboratório Algernon. O romance é narrado pelos próprios “relatórios de progresso” de Charlie, cuja ortografia e sintaxe acompanham, página a página, o estado de sua mente. Eles registram sua ascensão à genialidade e, depois, o declínio irreversível de Algernon, sinal de que a mesma sorte o espera.
Sabedoria não é inteligência
O primeiro movimento do livro é quase um axioma moral, colocado antes de qualquer reviravolta de enredo: Charlie, no seu estado pré-cirúrgico, é bom. Não é inteligente, mal consegue soletrar seu próprio relatório, mas quer aprender e confia nos outros, não guarda malícia. E o que ele deseja, no fundo, nem é a inteligência em si: quer ser inteligente para que as pessoas gostem dele. Desde a primeira página, o que Charlie procura é a amizade; a inteligência é apenas o caminho que ele imagina o levará até ela. Os colegas de panificação que o cercam, ao contrário, têm inteligência de sobra para o trabalho que fazem, e a usam para ridicularizar aqueles que consideram inferior. A mesma assimetria se repete, em registro mais sutil, entre os cientistas: há refinamento intelectual de sobra no laboratório, mas pouca preocupação real com a pessoa que está sendo operada.
Daniel Keyes constrói, sem precisar nomeá-la, a distinção clássica entre scientia e sapientia, entre a inteligência e a sabedoria. A sabedoria não é acúmulo de dados nem a elevação de um quociente: é a virtude amadurecida, equilíbrio afetivo e, mais fundamentalmente, a capacidade de ordenar a própria vida a um fim que valha a pena. A tradição filosífica resumiu isso numa fórmula que Santo Tomás de Aquino recolhe de Aristóteles: sapientis est ordinare — é próprio do sábio ordenar. Charlie, depois da cirurgia, adquire o instrumento (a inteligência bruta, uma memória fotográfica, fluência em várias línguas em questão de semanas) sem ter ainda a ordem desse instrumento a um bem. Por isso sua genialidade, longe de resolver seus problemas, os multiplica: ele agora consegue enxergar com clareza a própria solidão, a hipocrisia ao seu redor, a superficialidade de quem antes admirava, mas não é capaz de lidar com tudo isso.
E há mais: a inteligência sem sabedoria não apenas o expõe a novos desafios, ela o deforma. O Charlie genial torna-se soberbo. Impacienta-se com os professores universitários, que descobre serem muito menos brilhantes do que ele supunha; passa a enxergar nos cientistas que o operaram apenas homens comuns fingindo genialidade, e trata-os com desprezo ácido; afasta-se de Alice com frieza e condescendência, a ponto de ela perceber e entristecer-se, e dizer-lhe que ele se tornou outro. O homem que antes era alvo do desprezo aprende, com seu novo QI, a desprezar. O romance mostra assim, em carne e osso, aquilo que São Paulo formulou numa frase curta à qual retornaremos na conclusão: a ciência incha.
Como a sabedoria é conquistada
Se a inteligência, para ele, chega de uma vez, pelas mãos dos cirurgiões, a sabedoria não chega assim. Charlie precisa conquistá-la, e o romance mostra três vias, nenhuma delas puramente intelectual.
A primeira é a amizade. É através de outras pessoas, de Alice Kinnian, sobretudo, mas também os vínculos que ele tenta e frequentemente falha em construir, por meio dos quais Charlie aprende o que nenhum livro lhe ensinaria: que ser compreendido exige muito mais do que ser brilhante. Ele próprio chega a essa conclusão com uma franqueza desarmante: inteligência e educação sem afeto humano, escreve, “não valem droga nenhuma”.
A segunda via é a dor reconhecida. A inteligência devolve a Charlie o acesso às próprias memórias de infância e, com elas, a um sofrimento que antes não tinha capacidade nem recursos para nomear. Ele não se torna sábio apesar dessas memórias dolorosas, mas através delas: é reprocessando o abandono e a rejeição que sofreu que ele começa a entender a própria história, e não apenas a decorá-la. Não por acaso, essa memória o leva de volta, em pessoa, à mãe e à irmã: compreender a própria história não basta; é preciso reconciliar-se com ela.
A terceira via é o confronto com a violência do mundo, com a mesma zombaria que sofria antes, agora vista com uma nitidez insuportável, e com a nova hostilidade que sua própria inteligência desperta nos que se sentem ameaçados por ela. Há uma cena que resume tudo: numa lanchonete, um jovem ajudante com deficiência deixa cair uma pilha de pratos, e os clientes riem dele. Charlie ri junto até reconhecer, naquele rapaz, o homem que ele mesmo fora. É então ele quem se levanta para defendê-lo. A inteligência lhe mostrou a crueldade; mas somente a memória da própria dor o tornou capaz de combatê-la.
Nada disso, é claro, Charlie conquista sozinho, por puro esforço especulativo. A sabedoria, ao contrário da inteligência, não se adquire por download: recebe-se, mediada por relações, por perdas, por um corpo que sofre e por uma memória que dói. Não basta pensar bem para viver bem, é necessário conviver.
A dignidade que quase ninguém reconhece
O segundo grande eixo do romance corre paralelo ao primeiro: quase ninguém, antes da cirurgia, vê em Charlie uma pessoa dotada de natureza e dignidade próprias, uma dignidade que lhe pertence pelo simples fato de ser pessoa, e não pelo que ele é capaz de fazer. Veem um problema, um caso de estudo, um objeto de pena ou de riso.
A mãe, Rose, é talvez a figura mais dolorosa nesse sentido: incapaz de aceitar um filho “diferente”, ela o trata ora com rejeição, ora com uma esperança ansiosa de que ele deixe de ser quem é, mas nunca com o simples reconhecimento de que ele já era, desde sempre, isto é, alguém. Os cientistas, por sua vez, ainda que bem-intencionados em parte, tratam Charlie muito perto de como tratam Algernon: uma amostra, uma réplica humana do experimento, um dado a ser publicado. O próprio entusiasmo deles pelo “sucesso” da cirurgia revela o quanto medem o valor de Charlie pelo desempenho que ele passaria a exibir. Numa das cenas mais reveladoras, quando Charlie, já inteligente, protesta que não é um objeto, o Dr. Nemur concorda de imediato, e esclarece que se referia ao “outro” Charlie, o de antes da operação. Charlie precisa lembrar-lhe que também então era uma pessoa. Os colegas de padaria completam o quadro: riem dele precisamente porque nunca o veem como sujeito capaz de sofrer com o riso alheio.
O olhar mais lúcido é o de Alice Kinnian, a professora que o encaminha para o experimento. É ela quem vê Charlie como ele realmente é antes de qualquer cirurgia: não um déficit a corrigir, mas uma pessoa já capaz de crescer em sabedoria, à espera apenas de uma oportunidade. Se ela o recomenda para o experimento, não é por julgá-lo incompleto, mas porque viu nele, mais do que em qualquer outro aluno, o desejo e esforço de aprender.
Alice, porém, não está inteiramente só. Na padaria, Fanny Birden recusa-se a assinar o abaixo-assinado com que os colegas pedem a demissão do Charlie inteligente — e é justamente ela, a mais simples dentre todos os funcionários, quem pressente no experimento algo da tentação do Éden, a mão estendida para a árvore do conhecimento e a sugestão sibilar da serpente. O Sr. Donner, dono da padaria, emprega Charlie há anos por fidelidade a uma promessa feita ao tio dele. São presenças discretas, quase à margem da trama, mas o romance as põe ali por uma razão: reconhecer a pessoa não exige genialidade nem formação, exige apenas o olhar humilde e honesto.
Este detalhe é estruturalmente decisivo. O olhar verdadeiro é justamente aquele que reconhece a pessoa antes da performance: o exato oposto do erro que a mãe, os cientistas e os colegas cometem, cada um a seu modo.
A última obra da inteligência
Seria um erro, contudo, ler o livro como um libelo contra a inteligência. Afinal, muito pelo contrário, o romance lhe reserva um último e nobre papel. Quando Algernon começa a declinar cognitivamente, Charlie mergulha na pesquisa e identifica, ele mesmo, a falha do experimento: a inteligência induzida artificialmente se deteriora num ritmo proporcional ao próprio ganho, o que ficará conhecido como efeito Algernon-Gordon. É uma descoberta que o condena, mas ele a registra com rigor e a entrega à ciência.
Pela primeira vez, a inteligência de Charlie não serve à vaidade nem à autodefesa, mas à verdade: mesmo se contra si mesmo. Eis que temos o instrumento, enfim, ordenado a um bem. A inteligência nunca foi o problema; o problema era esperar dela, sozinha, aquilo que só a sabedoria pode dar. Quando se submete à verdade, ela deixa de ser rival da sabedoria e passa a servi-la.
O que fica quando a inteligência se esvai
A curva de Algernon, subida, platô, queda, é a metáfora mais precisa do livro: toda conquista puramente racional, por mais espetacular que possa ser, é também frágil. Quando a inteligência de Charlie começa a regredir, o leitor teme perder tudo aquilo o que ele construíra, e descobre, juntamente com o protagonista, que nem tudo se perde. O que permanece não é o QI; são os vínculos formados, a memória reconciliada, a cura emocional, a capacidade, ainda que diminuída, de querer o bem de alguém.
O romance dá a essa descoberta uma cena concreta. De volta à padaria, já afetado pela perda congnitiva, Charlie é maltratado por um funcionário novo, e eis que são justamente Joe Carp e Frank Reilly, os que tanto zombaram dele, que saem em sua defesa e avisam que quem mexer com Charlie terá de se entender com eles. Os mesmos homens que não suportaram o Charlie brilhante acolhem o Charlie simples como um dos seus. Nenhum QI foi necessário para isso. E mesmo no declínio cognitivo Charlie conserva sua dignidade e liberdade: decide partir por conta própria para uma instituição de acolhida de pessoas com deficiência mental para não se tornar objeto de pena de quem o ama.
É aí que o livro ressoa, sem citação explícita, o aviso de São Paulo: scientia inflat, caritas vero aedificat, a ciência incha, mas a caridade edifica (I Cor. VIII, 1). O que o protege da queda moral não é aquilo que Charlie sabia, mas o amor que Charlie deu e recebeu. Falando da sabedoria como dom do Espírito Santo, Santo Tomás ensina que ela tem sua causa na vontade, isto é, na caridade (Suma Teológica, IIa-IIæ, q. XLV, a. 2, corpus): quem ama julga retamente as coisas por uma espécie de afinidade com elas, e não apenas por raciocínio. Keyes não escreve, evidentemente, em registro teológico, mas sua intuição caminha na mesma direção. Se a sabedoria nunca esteve apoiada fundamentalmente na intelecção, ela pode permanecer quando o raciocínio já falha.
Charlie não termina sábio em sentido pleno. Termina a caminho, como todo viator, como todo peregrino que ainda não chegou ao termo da sua viagem, mas já sabe para onde anda. Encontrou a sabedoria de modo imperfeito, e precisamente quando a inteligência o deixava.
É isso que explica o título, que o leitor só compreende na última página. O último relatório de Charlie, escrito já com a ortografia vacilante do início do experimento, termina com um pedido: que alguém deixe flores no túmulo de Algernon, enterrado no quintal. Um homem que perdeu quase tudo gasta a última linha que lhe resta com a piedade por um rato de laboratório, o único ser que partilhou inteiramente o seu destino. Não há ali genialidade nenhuma; há apenas alguém que quer o bem.
Flores para Algernon termina, assim, não como uma tragédia do fracasso científico, mas como uma confirmação às avessas de que a dignidade da pessoa nunca dependeu do desempenho e de que a verdadeira sabedoria, ao contrário da inteligência instrumental, é exatamente aquilo que uma vida inteira, reordenada a um fim mais alto, consegue guardar mesmo quando o cérebro já não mais dá conta de performar.

