Quando o mundo muda rápido demais: a rigidez cognitiva no autista adulto

Quando o mundo muda rápido demaisA rigidez cognitiva no adulto autista de nível de suporte 1: o que acontece no cérebro, como ela aparece, por que se esconde e como conviver com ela Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP Lucas tem 34 anos, é analista de…

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Quando o mundo muda rápido demais
A rigidez cognitiva no adulto autista de nível de suporte 1: o que acontece no cérebro, como ela aparece, por que se esconde e como conviver com ela

Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP

Lucas tem 34 anos, é analista de sistemas e é considerado pelos colegas um dos profissionais mais confiáveis da equipe. Numa terça-feira, às nove da manhã, recebe uma mensagem: a reunião das 14h00 foi antecipada para as 10h00. Ele responde “Ok, sem problemas”, abre a pauta, participa da reunião e faz observações pertinentes. Ninguém nota nada.

O que ninguém vê é que o resto do seu dia desmoronou. O bloco de trabalho concentrado que ele havia reservado para a manhã desapareceu; a sequência de tarefas que estava organizada em sua cabeça precisou ser refeita às pressas; e, durante horas, uma sensação difusa de desordem o acompanha. À noite, em casa, está exausto como se tivesse corrido uma maratona, e não consegue explicar a si mesmo por quê. Afinal, “era só uma reunião”.

Lucas é autista e recebeu o diagnóstico tardiamente, aos 31 anos. A cena descreve, em miniatura, três realidades que este artigo pretende explorar: a rigidez cognitiva, uma das características centrais do autismo; o modo particular como ela se apresenta em adultos de nível de suporte 1, cuja funcionalidade aparente costuma esconder dificuldades reais; e o masking, o esforço, muitas vezes invisível, de parecer “neurotipicamente” tranquilo quando, na realidade, não se está.

A ideia que perpassa todo o texto é simples, embora contrarie o senso comum: a rigidez não é teimosia nem defeito de caráter. É, em boa medida, a estratégia de um cérebro que percebe o mundo como mais imprevisível do que ele parece às outras pessoas. Como toda estratégia, ela tem finalidades mas também tem custos, e pode ser compreendida, manejada e acolhida.

Explicando os termos

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) descreve o transtorno do espectro autista (TEA) a partir de dois grandes domínios: dificuldades persistentes na comunicação e na interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. O manual também propõe três níveis de suporte, de acordo com a quantidade de apoio de que a pessoa necessita [1].

O nível 1 corresponde às pessoas que “exigem apoio”: em geral falam com fluência, estudam, trabalham e mantêm vínculos, mas enfrentam dificuldades significativas, muitas vezes pouco visíveis para quem está de fora. Boa parte delas seria descrita, até alguns anos atrás, como tendo “síndrome de Asperger”, em uma adaptação diagnóstica para poder suprir a falta de classificação adequada. O termo, finalmente, deixou de ser um diagnóstico oficial a partir do DSM-5, em 2013.

Uma advertência importante: nível 1 não significa “autismo leve”. O nível de suporte manifesta a quantidade de apoio externo necessária e não a intensidade do sofrimento. Como veremos, é justamente nesse grupo que a rigidez pode ser mais mal compreendida, pois que a competência em outras áreas faz com que as dificuldades acabem por ser desacreditadas.

O que é, afinal, a rigidez cognitiva

Na neuropsicologia, a flexibilidade cognitiva é uma das chamadas funções executivas, isto é, as capacidades que nos permitem planejar, controlar impulsos e adaptar o comportamento. Em sentido estrito, ela é a capacidade de mudar de tarefa, de regra ou de perspectiva quando as circunstâncias assim exigem. Quem, ao encontrar uma rua interditada, simplesmente pega outro caminho sem grande abalo está usando a sua flexibilidade cognitiva.

No autismo, porém, a rigidez é um fenômeno mais amplo do que uma função executiva isolada. O DSM-5-TR a inclui entre os padrões restritos e repetitivos, especificamente na forma de insistência nas mesmas coisas, de adesão inflexível a rotinas e padrões ritualizados de comportamento. Entre os exemplos que o manual oferece estão o sofrimento intenso diante de pequenas mudanças, a dificuldade com transições, padrões rígidos de pensamento e a necessidade de fazer o mesmo trajeto ou comer a mesma comida todos os dias [1].

Na prática, a rigidez se manifesta em pelo menos quatro planos que se entrelaçam: no comportamento(rotinas e rituais), no pensamento (raciocínio dicotômicos, isto é, em termos de “certo ou errado”, apego a regras), na atenção (dificuldade de se desprender de um foco) e na linguagem (tendência à interpretação literal).

O paradoxo da flexibilidade

Um dos achados mais interessantes da pesquisa sobre o tema foi batizado de “paradoxo da flexibilidade cognitiva no autismo” [2]. Quando pessoas autistas são avaliadas com testes de laboratório que medem a capacidade de mudar de regra ou de estratégia, como o Wisconsin Card Sorting Test e diversas tarefas de alternância, os resultados, no conjunto dos estudos, são surpreendentemente inconsistentes. Muitos adultos autistas, sobretudo os de nível 1 de suporte, apresentam desempenho dentro da média. No entanto, questionários sobre o funcionamento no dia a dia e os relatos das próprias pessoas e de seus familiares mostram, de forma muito mais consistente, dificuldades reais de flexibilidade.

Como explicar essa discrepância? Uma hipótese plausível é que o laboratório oferece exatamente aquilo de que a mente autista precisa para funcionar bem: instruções explícitas, ambiente estruturado, poucas distrações e baixa exigência social. A vida real oferece o contrário: mudanças sem aviso, regras implícitas, ruído, pessoas e várias demandas simultâneas. Além disso, adultos com bom repertório intelectual podem resolver tarefas de laboratório por caminhos compensatórios, como estratégias verbais conscientes, que funcionam na sala de testes mas se mostram ineficazes em sua aplicação quotidiana.

A consequência prática é conhecida de muitos autistas de nível 1: ouvir que “não parecem autistas” e ter sua dificuldade tratada como exagero, frescura ou falta de boa vontade.

O que acontece no cérebro

Antes de entrar na neurobiologia, três cuidados devem ser tomados. Primeiro, os achados descritos a seguir vêm de estudos com grupos, e o espectro autista é muito heterogêneo: nenhuma pessoa autista pode representar a “média” de um estudo. Segundo, a maior parte das associações é correlacional, ou seja, mostra que duas coisas andam juntas, não necessariamente que uma causa a outra (afinal, correlação não implica causalidade, como todos sabem). Terceiro, nenhum exame de imagem cerebral pode, por si só, diagnosticar o autismo. O que a neurociência oferece é um mapa de hipóteses cada vez mais coerente, que ajuda a descrever o comportamento, entender a experiência, e não rotulá-la como “defeito”.

Os circuitos da mudança de rota

Boa parte da nossa capacidade de mudar de estratégia depende de circuitos que ligam o córtex pré-frontal, especialmente o córtex orbitofrontal e o cingulado anterior, aos núcleos da base, em particular ao estriado, onde está o núcleo caudado. Esse sistema, chamado fronto-estriatal, toma parte na denominada aprendizagem por reversão: aprender que uma opção é a correta e, depois, quando a regra é alterada inesperadamente, abandonar a resposta antiga e adotar uma nova resposta.

Em um estudo com pessoas autistas de diferentes idades, pesquisadores observaram que elas aprendiam a regra inicial normalmente, mas tinham dificuldade quando a regra era invertida, tendendo a insistir na escolha que antes era tida por correta [3]. Em outro trabalho, que acompanhou o desenvolvimento cerebral de crianças ao longo de alguns anos por ressonância magnética funcional, o estriado das crianças autistas cresceu em ritmo diferente, e esse padrão de crescimento se associou à intensidade dos comportamentos repetitivos [4]. Os próprios autores consideraram plausível que a direção seja, ao menos em parte, inversa: que os comportamentos repetitivos moldem o desenvolvimento do estriado, e não apenas o contrário. São peças de um quebra-cabeça que aponta para diferenças no funcionamento desse circuito.

Redes que trocam de marcha com mais esforço

O cérebro não funciona apenas por regiões isoladas, mas por grandes redes que se alternam conforme a situação. Uma delas, a rede de modo padrão, é mais ativa quando estamos em repouso ou pensando em nós mesmos; outras, como a rede de saliência e a rede executiva central, entram em cena quando precisamos detectar algo importante e agir. Um estudo com crianças autistas mostrou que, nelas, a configuração dessas redes muda menos entre o estado de repouso e o de tarefa, e que quanto menor essa alternância, mais intensos eram os comportamentos restritos e repetitivos [5].

Uma imagem ajuda a entender: é como um carro em que a troca de marchas é mais pesada. O motor pode ser excelente, mas cada mudança exige mais esforço.

Um cérebro que prevê o mundo de outro modo

A melhor abordagem descritiva, e talvez a que mais dialoga com a experiência das pessoas autistas, vem das teorias do cérebro preditivo. Segundo essa perspectiva, o cérebro não se limita a receber informações: ele está o tempo todo antecipando o que vai acontecer e comparando essas previsões com o que de fato chega através dos sentidos. Quando há uma diferença entre o previsto e o percebido, surge um “erro de previsão”, que o cérebro usa para atualizar seu modelo preditivo do mundo.

Diversos pesquisadores propuseram que, no autismo, esse equilíbrio ocorre de outro modo. Uma hipótese sugere que as expectativas prévias pesam menos, de modo que o mundo é percebido de forma mais “crua”, sendo menos filtrado por aquilo que já se sabe [6]. Outra propõe que o cérebro autista atribui um peso elevado e pouco flexível aos erros de previsão: pequenas diferenças, que outras pessoas ignorariam como sendo irrelevantes, são tratadas como uma informação importante, o que torna o mundo mais surpreendente e mais difícil de generalizar [7]. Um experimento com adultos autistas mostrou que eles tendiam a superestimar o quanto o ambiente era instável. Curiosamente, mostravam-se menos surpresos diante de eventos inesperados isolados, como quem já espera que o mundo mude a todo momento; e quanto menor essa surpresa, mais intensos eram os traços autistas [8].

Se essas hipóteses estiverem corretas, e há bons motivos para levá-las a sério, a rigidez ganha um novo sentido. Para um cérebro que percebe o mundo como instável e imprevisível, criar ilhas de previsibilidade (a mesma rotina, o mesmo caminho, a mesma comida, regras claras) é uma forma de reduzir a carga e manter o equilíbrio. A rigidez deixa de parecer um sintoma sem sentido e passa a ser compreendida como uma tentativa de pôr ordem no imprevisível.

A ponte entre o cérebro e o comportamento: a intolerância à incerteza

No plano psicológico, um conceito tem ganhado importância: a intolerância à incerteza, isto é, a tendência a viver situações incertas como ameaçadoras e difíceis de suportar. Pesquisas indicam que ela ajuda a explicar a elevada frequência do Transtorno de Ansiedade Generalizada no autismo [9] e que participa de um concatenamento que liga as diferenças no processamento sensorial, a ansiedade e a insistência na mesmice [10].

Isso explica uma observação que muitas pessoas autistas fazem sobre si mesmas: a rigidez não é constante. Ela aumenta quando estão cansadas, estressadas, com fome, expostas a muito barulho ou luz, ou diante de demandas sociais intensas. Quanto mais sobrecarregado o sistema, mais ele se apega àquilo que é previsível.

Monotropismo: a atenção em túnel

Uma última peça vem de uma teoria formulada por pesquisadores ligados à comunidade autista, entre eles o pesquisador autista Wenn Lawson: o monotropismo [11]. Segundo essa proposta, a atenção autista tende a concentrar-se intensamente em poucos focos de cada vez, com grande profundidade, em vez de se distribuir por muitos focos simultâneos. Isso favorece a concentração e o conhecimento aprofundado, mas torna as transições custosas: sair de um foco é como sair de um túnel, e entrar em outro exige tempo. Trata-se de um modelo teórico ainda em investigação empírica, mas que descreve com precisão a experiência de muitos autistas quando são interrompidos na execução de seus planos.

Circuitos, redes, previsão, incerteza e atenção: esses níveis descritivos não competem entre si. Juntos, compõem um quadro coerente em que a rigidez aparece como expressão de um modo diferente de processar o mundo.

Como a rigidez aparece na vida adulta

No autista adulto de nível 1 de suporte, a rigidez raramente se parece com os estereótipos. Ela é, muitas vezes, discreta, e por isso mesmo confundida com traços de personalidade. Eis algumas manifestações frequentes:

  • Planos e mudanças. Alterações de última hora, mesmo quando agradáveis, podem ser muito desorganizadoras. Um programa cancelado, uma visita inesperada ou uma festa surpresa podem gerar mais desconforto do que alegria. Não se trata de ingratidão: o plano mental já estava montado, e desmontá-lo custa energia.
  • Transições. Ser interrompido no meio de uma tarefa concentrada é particularmente difícil. O “só um minutinho” de um colega pode significar, para a pessoa autista, perder o fio e precisar de muito tempo para reencontrá-lo.
  • Rotinas e rituais. O mesmo trajeto, o mesmo café da manhã, a mesma ordem de atividades. Para quem observa de fora, parece mania; para quem vive, é um ponto de apoio que libera energia para manejar as dificuldades do resto do dia.
  • Pensamento. Tendência a raciocinar em categorias nítidas (certo ou errado, justo ou injusto), forte apego a regras e dificuldade em lidar com as exceções: “por que a regra vale para mim e não para ele?”. É comum também a dificuldade de aceitar que existe outra maneira, igualmente válida, de realizar uma tarefa que já se sabe fazer de um jeito: “por que mudar se assim funciona?”.
  • Linguagem. Interpretação literal de frases, dificuldade com ironias e, sobretudo, com pedidos implícitos. “Seria bom se alguém lavasse a louça” pode ser entendido como uma constatação e não como um pedido.
  • Perseverança. Dificuldade em “largar” um assunto, um erro cometido, uma conversa que terminou mal. A mente volta a ele repetidas vezes, como quem tenta resolver um problema que não fecha.

Não é TOC, nem simples perfeccionismo

A rigidez autista é às vezes confundida com o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Uma diferença útil, embora não absoluta, é que as rotinas autistas costumam ser vividas como confortáveis e coerentes com o modo de ser da pessoa, enquanto as compulsões do TOC costumam ser vividas como intrusivas e indesejadas, motivadas por pensamentos que causam angústia.

As duas condições, porém, podem coexistir, e a distinção exige uma avaliação profissional cuidadosa.

O outro lado da moeda

Seria injusto falar da rigidez apenas como sendo uma dificuldade. O mesmo traço comportamental que torna as mudanças custosas costuma vir acompanhado de consistência, confiabilidade, atenção a detalhes, honestidade, senso de justiça e perseverança. A pessoa que sofre quando o plano muda é, muitas vezes, a mesma que nunca esquece um prazo e que cumpre o que prometeu. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que a característica tem valor, e que o objetivo nunca é negá-la ou apagá-la.

A máscara: quando a rigidez se esconde

Muitos adultos autistas aprendem, ao longo da vida, a esconder suas dificuldades para se adaptar às expectativas sociais. Esse fenômeno recebe o nome de camuflagem ou masking. Em um estudo qualitativo com 92 adultos autistas, pesquisadores descreveram a camuflagem como um processo em três etapas: as motivações (sobretudo encaixar-se e criar vínculos com os outros); a camuflagem propriamente dita, que combina técnicas de mascaramento (esconder características autistas) e de compensação (desenvolver estratégias para contornar dificuldades); e as consequências, entre as quais a exaustão e as ameaças à própria autopercepção [12].

No caso da rigidez, o masking assume formas muito concretas: aceitar uma mudança com um sorriso enquanto se desorganiza inteiramente por dentro; planejar secretamente todos os cenários possíveis de um encontro; ensaiar conversas; conter sinais de desconforto; e adiar a reação para quando se está sozinho. Muitos descrevem um verdadeiro colapso depois do evento, estando já em casa, como o caso de Lucas na história do início do artigo.

Há uma ironia cruel aqui: justamente por possuírem mais recursos cognitivos e linguísticos, os adultos autistas de nível 1 de suporte conseguem mascarar melhor. E, ao mascarar melhor, a própria competência se torna uma fonte de alto custo energético. A camuflagem também parece contribuir para o diagnóstico tardio, sobretudo em mulheres, cujas manifestações frequentemente passam despercebidas por anos.

Os custos acumulados podem ser graves. Pesquisas conduzidas com a participação de adultos autistas descreveram o burnout autista: um estado de exaustão prolongada, perda de habilidades antes preservadas e redução da tolerância a estímulos, que resulta de estresses regulares da vida que excedem os recursos de manejo da pessoa, sem apoio suficiente [13]. Os autores o descrevem como um fenômeno distinto tanto do burnout profissional quanto do Transtorno Depressivo Maior, e chamam a atenção para os riscos de ensinar pessoas autistas a mascarar seus traços. Além disso, um estudo com adultos autistas apontou a camuflagem, juntamente das necessidades de apoio não atendidas, como um dos fatores associados ao maior risco de pensamentos e comportamentos suicidas [14]. Esse dado não deve assustar, mas alertar: o sofrimento que não é percebido não deixa de existir.

Para a pessoa autista: como manejar a rigidez

O princípio que orienta esta seção é claro: o objetivo não é eliminar a rigidez, mas reduzir o sofrimento e ampliar a margem de escolha. Uma parte considerável da rigidez é a autorregulação legítima, e retirá-la sem colocar nada no lugar só aumentaria a angústia. O deve ser buscado é que a pessoa possa escolher quando se apoiar na estrutura e quando se permitir variar, sem ser dominada pela necessidade de controle.

Conhecer o próprio padrão. Um registro simples, mesmo por algumas semanas, de quando você se sentiu “travado” ou desorganizado pode revelar gatilhos recorrentes: cansaço, fome, sobrecarga sensorial, incerteza, excesso de demandas sociais. Saber que a rigidez aumenta nesses estados permite antecipá-los e reduzir outras exigências nesses momentos.

Distinguir preferência de prisão. Algumas perguntas ajudam: essa rotina me serve ou eu sirvo a ela? O que acontece comigo quando ela falha? Ela está me impedindo de alcançar algo que eu desejo? Rotinas que trazem bem-estar merecem ser protegidas; as que geram sofrimento desproporcional devem ser trabalhadas aos poucos.

Flexibilidade planejada. Parece contraditório, mas funciona: usar a estrutura para criar flexibilidade. Prever um plano B por escrito, reservar intervalos de folga na agenda e incluir no planejamento a possibilidade de mudança fazem com que o imprevisto adveniente já esteja de algum modo “no plano”.

Cuidar das transições. Alarmes que avisam alguns minutos antes de uma mudança de atividade, pequenos rituais de passagem (levantar, beber água, anotar onde parou) e o hábito de registrar o ponto exato em que uma tarefa foi interrompida reduzem o custo de sair e voltar ao “túnel” atencional.

Buscar informação para reduzir a incerteza. Pedir detalhes sobre um compromisso, consultar o cardápio de um restaurante antes de ir, conhecer previamente um lugar novo: tudo isso diminui a quantidade de surpresas e, portanto, alivia a carga da imprevisibilidade.

Expor-se gradualmente, por escolha própria, ao diferente. Pequenas variações escolhidas pela própria pessoa, em momentos de menor estresse, como experimentar outro caminho em um dia sem pressa, ajudam a ampliar a tolerância à mudança. A palavra-chave é controle: a exposição que funciona é gradual, previsível e consentida, não imposta.

Administrar a energia e a camuflagem. Reconhecer que mascarar tem custo é o primeiro passo. Ter espaços e pessoas diante das quais não é preciso fingir, reservar tempo de recuperação depois de eventos sociais exigentes e avaliar, com prudência, a quem e quando revelar o diagnóstico são formas de proteger-se do esgotamento.

Buscar ajuda profissional qualificada. A terapia cognitivo-comportamental adaptada ao autismo tem evidências favoráveis: uma revisão sistemática com metanálise encontrou efeitos positivos sobre a ansiedade e outros quadros emocionais quando avaliados por clínicos e familiares, embora os efeitos medidos pelo relato das próprias pessoas autistas tenham sido menores e não significativos, o que pede prudência [15]. Há também programas voltados especificamente ao manejo da intolerância à incerteza, incluindo uma adaptação para adultos autistas, testada inicialmente com poucos participantes, que se mostrou bem aceita e promissora [16], e programas para a flexibilidade cognitiva em crianças, com resultados positivos em ensaio controlado [17]. É necessário, no entanto, ter honestidade acadêmica: boa parte dessas pesquisas foi feita com crianças ou com amostras pequenas, e as evidências para adultos ainda são limitadas. É necessário, pois, procurar profissionais que conheçam o autismo em adultos e cujo objetivo seja o bem-estar da pessoa e não a sua suposta “normalização”.

Para quem convive: como lidar com a rigidez

Durante muito tempo, as dificuldades de comunicação entre autistas e não autistas foram atribuídas exclusivamente ao lado autista. O pesquisador Damian Milton, ele próprio autista, propôs uma leitura diferente, que ficou conhecida como o problema da dupla empatia: as falhas de compreensão são mútuas, porque cada lado tem dificuldade de compreender o modo de funcionar do outro [18]. A consequência prática é, pois, de enorme importância: a adaptação deve ser compartilhada e não recair apenas sobre a pessoa autista.

  • Antecipe e explique. Sempre que possível, avise mudanças com antecedência e diga o motivo. “A reunião mudou para as 10h porque o diretor viaja à tarde” é muito mais fácil de processar do que uma simples alteração de horário.
  • Dê tempo de processamento. Uma mudança pode precisar de alguns minutos, ou algumas horas, para ser assimilada. A primeira reação nem sempre é a definitiva; evite exigir uma resposta imediata.
  • Ofereça escolhas e não ultimatos. “Podemos ir no sábado ou no domingo; qual dia seria melhor para você?” preserva a sensação de controle e reduz a resistência.
  • Seja claro e literal. Diga o que você quer dizer. “Preciso que você lave a louça hoje, até as nove da noite” funciona melhor do que indiretas, que podem simplesmente não ser captadas como pedido.
  • Não leia a rigidez como teimosia. Em vez de “você está sendo difícil”, pergunte: “o que está pesando na assimilação dessa mudança?”. A resposta costuma revelar uma dificuldade concreta que pode ser resolvida ou trabalhada.
  • Respeite as rotinas que regulam e negocie as que atrapalham. Nem toda rotina precisa ser mantida a qualquer custo, e a convivência envolve concessões dos dois lados. Mas convém distinguir as rotinas que sustentam o equilíbrio da pessoa das que realmente prejudicam a vida em comum, as quais podem ser negociadas com calma, fora dos momentos de crise.
  • Identifique os sinais de sobrecarga. Irritabilidade, respostas curtas, silêncio, necessidade de se isolar ou dificuldade repentina em tarefas simples podem indicar que o limite está próximo. Reduzir as demandas nesses momentos é de grande importância para prevenir crises.
  • Na crise, regule primeiro e converse depois. Diante de uma sobrecarga intensa, a pessoa autista pode ter um meltdown, uma reação involuntária e explosiva de esgotamento, ou um shutdown, um desligamento no qual ela se retrai e mal consegue falar. Nenhum dos dois é birra ou manipulação. Nesses momentos, não adianta argumentar: diminua os estímulos, fique disponível sem insistir e deixe a conversa para depois; afinal, sem regulação sensorial e emocional não é possível ter uma conversa adequada.
  • Cuide de você também. Conviver com a rigidez de alguém que se ama pode ser extremamente cansativo, e reconhecer isso não é falta de amor. A compreensão não significa aceitar desrespeito, nem abrir mão das próprias necessidades. Buscar informação, apoio e, se preciso, acompanhamento profissional também para quem convive faz parte de uma relação saudável. É preciso sempre lembrar que é necessário estar bem para que se possa ajudar os outros a ficar bem.

Mitos e fatos

MitoO que a ciência indica
“É birra ou teimosia.”A rigidez está ligada a diferenças no processamento de informações e à necessidade de regular a sobrecarga e a incerteza.
“Se trabalha e conversa normalmente, não pode ser autista.”No nível 1 de suporte, a competência aparente e o masking frequentemente escondem dificuldades reais e um alto custo de energia.
“O melhor é forçar a mudança para que a pessoa já se acostume.”Mudanças impostas tendem a aumentar a ansiedade. A exposição que pode ajudar é sempre gradual, previsível e consentida.
“Rigidez é só um defeito a ser corrigido.”Ela também tem funções reguladoras e costuma vir acompanhada de consistência, confiabilidade e perseverança.

De volta a Lucas

Imaginemos a mesma terça-feira, com um desfecho diferente. Na segunda à tarde, o gestor de Lucas o avisa: “Amanhã a reunião talvez precise ser às 10h, porque o diretor viaja à tarde. Esse horário funciona para você?”. Lucas reorganiza a manhã com calma, transfere o trabalho concentrado para a tarde e reserva quinze minutos de pausa depois da reunião. À noite, está cansado como qualquer pessoa depois de um dia de trabalho, e não mais do que isso.

Não houve nada de heroico nessa mudança. Nem o gestor precisou tornar-se especialista em autismo, nem Lucas precisou deixar de ser quem é. Bastaram pequenos ajustes, de ambos os lados, fundados em compreensão mútua. É isso que a ciência da rigidez cognitiva pode oferecer ao público em geral: não um rótulo, mas uma chave de leitura que transforma o que parecia teimosia em algo que pode ser entendido, respeitado e, na medida do possível, acolhido.

Notas

[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2023.

[2] GEURTS, H. M.; CORBETT, B.; SOLOMON, M. The paradox of cognitive flexibility in autism. Trends in Cognitive Sciences, v. 13, n. 2, p. 74-82, 2009. DOI: 10.1016/j.tics.2008.11.006.

[3] D’CRUZ, A.-M. et al. Reduced behavioral flexibility in autism spectrum disorders. Neuropsychology, v. 27, n. 2, p. 152-160, 2013. DOI: 10.1037/a0031721.

[4] LANGEN, M. et al. Changes in the development of striatum are involved in repetitive behavior in autism. Biological Psychiatry, v. 76, n. 5, p. 405-411, 2014. DOI: 10.1016/j.biopsych.2013.08.013.

[5] UDDIN, L. Q. et al. Brain state differentiation and behavioral inflexibility in autism. Cerebral Cortex, v. 25, n. 12, p. 4740-4747, 2015. DOI: 10.1093/cercor/bhu161.

[6] PELLICANO, E.; BURR, D. When the world becomes “too real”: a Bayesian explanation of autistic perception. Trends in Cognitive Sciences, v. 16, n. 10, p. 504-510, 2012. DOI: 10.1016/j.tics.2012.08.009.

[7] VAN DE CRUYS, S. et al. Precise minds in uncertain worlds: predictive coding in autism. Psychological Review, v. 121, n. 4, p. 649-675, 2014. DOI: 10.1037/a0037665.

[8] LAWSON, R. P.; MATHYS, C.; REES, G. Adults with autism overestimate the volatility of the sensory environment. Nature Neuroscience, v. 20, n. 9, p. 1293-1299, 2017. DOI: 10.1038/nn.4615.

[9] BOULTER, C. et al. Intolerance of uncertainty as a framework for understanding anxiety in children and adolescents with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 44, n. 6, p. 1391-1402, 2014. DOI: 10.1007/s10803-013-2001-x.

[10] WIGHAM, S. et al. The interplay between sensory processing abnormalities, intolerance of uncertainty, anxiety and restricted and repetitive behaviours in autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 45, n. 4, p. 943-952, 2015. DOI: 10.1007/s10803-014-2248-x.

[11] MURRAY, D.; LESSER, M.; LAWSON, W. Attention, monotropism and the diagnostic criteria for autism. Autism, v. 9, n. 2, p. 139-156, 2005. DOI: 10.1177/1362361305051398.

[12] HULL, L. et al. “Putting on my best normal”: social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, n. 8, p. 2519-2534, 2017. DOI: 10.1007/s10803-017-3166-5.

[13] RAYMAKER, D. M. et al. “Having all of your internal resources exhausted beyond measure and being left with no clean-up crew”: defining autistic burnout. Autism in Adulthood, v. 2, n. 2, p. 132-143, 2020. DOI: 10.1089/aut.2019.0079.

[14] CASSIDY, S. et al. Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism, v. 9, art. 42, 2018. DOI: 10.1186/s13229-018-0226-4.

[15] WESTON, L.; HODGEKINS, J.; LANGDON, P. E. Effectiveness of cognitive behavioural therapy with people who have autistic spectrum disorders: a systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, v. 49, p. 41-54, 2016. DOI: 10.1016/j.cpr.2016.08.001.

[16] RODGERS, J.; HERREMA, R.; HONEY, E.; FREESTON, M. Towards a treatment for intolerance of uncertainty for autistic adults: a single case experimental design study. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 48, n. 8, p. 2832-2845, 2018. DOI: 10.1007/s10803-018-3550-9.

[17] KENWORTHY, L. et al. Randomized controlled effectiveness trial of executive function intervention for children on the autism spectrum. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 55, n. 4, p. 374-383, 2014. DOI: 10.1111/jcpp.12161.

[18] MILTON, D. E. M. On the ontological status of autism: the “double empathy problem”. Disability & Society, v. 27, n. 6, p. 883-887, 2012. DOI: 10.1080/09687599.2012.710008.

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