O Autista e a doença

Por que pessoas com autismo têm dificuldade em perceber que estão doentes? Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP Consideremos nosso corpo como uma casa inteligente, cheia de sensores que avisam quando algo está errado – temperatura alterada, vazamentos, problemas elétricos. Para a maioria das pessoas, esses…

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Ilustração a bico de pena: jovem melancólico à escrivaninha, cercado de vinhetas anatômicas do cérebro, do coração, dos pulmões e do aparelho digestivo

Por que pessoas com autismo têm dificuldade em perceber que estão doentes?

Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Consideremos nosso corpo como uma casa inteligente, cheia de sensores que avisam quando algo está errado – temperatura alterada, vazamentos, problemas elétricos. Para a maioria das pessoas, esses alertas chegam automaticamente à “central de controle” (que para nós é o cérebro), que imediatamente nos faz sentir que algo não está bem. Mas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é como se muitos desses sensores estivessem desconectados ou enviando sinais fracos demais para serem notados conscientemente.

O que acontece no cérebro de uma pessoa com Autismo?

Para entendermos melhor, pensemos no cérebro como uma grande cidade. As diferentes regiões do cérebro são como bairros, e as conexões neurais são as ruas e avenidas que os conectam. No autismo, a “malha viária” neurológica funciona de forma diferente: alguns bairros têm excesso de ruas pequenas e intricadas (o que chamamos de hiperconectividade local), enquanto faltam grandes rodovias conectando bairros distantes (hipoconectividade de longo alcance).

Essa diferença na “arquitetura urbana” do cérebro significa que algumas informações circulam intensamente em áreas pequenas, mas têm dificuldade para viajar entre regiões distantes que precisam trabalhar juntas. É como ter um serviço de correios super eficiente dentro de cada bairro, mas com entregas muito lentas entre bairros diferentes.

A questão dos sentidos internos

Todos nós temos sentidos que nos informam sobre o mundo exterior: visão, audição, tato, paladar e olfato. Mas também temos sentidos internos que nos dizem o que está acontecendo dentro do nosso corpo. Esses sentidos internos nos avisam quando estamos com fome, sede, cansados, ou quando algo não está bem com nossa saúde. A esses sentidos nós chamamos de interocepção. Trata-se de uma espécie de um “radar interno” constantemente monitorando nosso estado corporal.

No autismo, esse radar interno funciona de forma diferente. Não é que ele esteja quebrado, afinal os sinais do corpo continuam sendo enviados normalmente. O problema ocorre no processamento desses sinais no cérebro. É como se os avisos do corpo fossem escritos em um idioma que o cérebro tem dificuldade para traduzir rapidamente em sensações conscientes.

Por que é difícil perceber uma doença

Quando uma pessoa alística começa a ficar doente, ela geralmente “sente” que algo está errado antes mesmo de ter sintomas específicos. É uma sensação vaga mas inconfundível de mal-estar. Isso acontece porque o cérebro está recebendo e interpretando automaticamente milhares de pequenos sinais do corpo (leves alterações na temperatura, mudanças químicas no sangue, pequenas inflamações) como sinais de adoecimento e emitindo um aviso geral de doença.

Para uma pessoa no espectro autista, esses sinais sutis muitas vezes passam despercebidos pela consciência. É como tentar ouvir alguém sussurrando em uma sala com muito ruído de fundo: a mensagem está lá, mas não consegue atravessar todo o “barulho” de outros incontáveis processos cerebrais para chegar à atenção consciente.

Como o cérebro autista compensa essa disfunção?

Não obstante, o cérebro humano de forma surpreendente sempre encontra formas de se adaptar. Quando o sistema de “sensação automática” não funciona bem, pessoas com autismo desenvolvem estratégias alternativas baseadas na observação e no raciocínio lógico. Em vez de “sentir” que estão doentes, elas precisam “deduzir” isso através de pistas:

  • Observam mudanças no próprio comportamento: “Normalmente consigo me concentrar por duas horas, hoje só aguento 30 minutos: algo deve estar errado.”
  • Notam alterações emocionais: “Estou mais irritado que o normal sem motivo aparente – pode ser sinal de um problema físico.”
  • Monitoram o cumprimento de rotinas: “Tarefas que faço automaticamente estão difíceis hoje.”
  • Consideram o contexto: “Várias pessoas ao meu redor estão gripadas, talvez eu também esteja ficando.”
  • Fazem verificações objetivas: “Vou medir minha temperatura para ter certeza.”

Um exemplo prático: a gripe

Vejamos como um estado gripal se desenvolve em uma pessoa com autismo para entender melhor esse processo. Quando o vírus entra no corpo, o sistema imunológico começa a combatê-lo, causando inflamação. Em pessoas neurotípicas, essa inflamação é rapidamente “traduzida” pelo cérebro em sensação global de mal-estar.

Em pessoas com autismo, os sinais de inflamação chegam ao cérebro mas ficam “presos” no “engarrafamento” das vias neurais antes de virarem sensações conscientes. É como se a mensagem “você está doente” fosse enviada mas se perdesse no correio interno do cérebro.

Por isso, a pessoa pode continuar suas atividades normalmente por mais tempo, só percebendo que está doente quando os sintomas se tornam muito óbvios para ignorar: febre alta, tosse forte, extremo cansaço. Nesse ponto, já não é mais necessário o sistema de “sensação sutil” porque os sinais são tão fortes que até os caminhos alternativos do cérebro conseguem processá-los.

O paradoxo da compensação

E eis que neste momento surge um problema interessante: as estratégias de observação e dedução que pessoas com autismo usam para detectar doenças exigem muita energia mental. É como ter que fazer contas complexas para descobrir algo que outros sabem instintivamente. E quando a pessoa está ficando doente, sua capacidade mental também diminui, tornando ainda mais difícil fazer este trabalho de detetive sobre o próprio corpo.

Trata-se, efetivamente, de um ciclo complicado: quanto mais doente a pessoa está, menos capaz ela é de usar suas estratégias compensatórias para perceber que está doente. Por isso muitas vezes o reconhecimento só vem quando a doença já está bem estabelecida e a pessoa doente está incapacitada.

Implicações práticas

Embora possa parecer fruto de um hiperfoco, entender essas diferenças não é apenas curiosidade científica, afinal, as implicações são reais e importantes. Primeiramente, ajuda a compreender que quando uma pessoa com autismo não percebe que está doente, não é por descuido ou falta de atenção ao próprio corpo. Trata-se de uma diferença neurológica real, tão válida quanto ser canhoto ou ter olhos de cor diferente.

Em segundo lugar, esse conhecimento permite desenvolver estratégias de apoio mais eficazes. Por exemplo, criar rotinas de verificação regular de saúde, usar aplicativos que lembrem de monitorar sintomas, ou estabelecer checagens simples e objetivas (como medir temperatura diariamente durante temporadas de gripe).

Também é importante que familiares, professores e profissionais de saúde entendam que pessoas com autismo podem estar significativamente doentes sem demonstrar ou relatar isso. Uma vigilância mais atenta e perguntas diretas sobre sintomas específicos podem ajudar na detecção precoce de problemas de saúde.

Conclusão: uma forma diferente de o cérebro interpretar as sensações

O autismo nos ensina que existem muitas formas distintas de experimentar e entender o mundo, e, por conseguinte, o próprio corpo. A dificuldade em perceber doenças não é uma falha ou defeito, mas sim o resultado de um cérebro que processa informações de forma diferente.

Assim como algumas pessoas têm ouvido absoluto para música enquanto outras precisam de um diapasão (e outras nem com alguém dando a nota…), algumas pessoas “sentem” instantaneamente mudanças em seu corpo enquanto outras precisam “deduzi-las” através de uma observação cuidadosa. Entender a neurodivergência nos torna mais capazes de criar um manejo preventivo e terapêutico adequado a todos os tipos de cérebros. O mais importante é reconhecer que, com o suporte adequado e estratégias apropriadas, pessoas com autismo podem monitorar sua saúde de forma efetiva, e isso com o uso de caminhos diferentes daqueles que a maioria das pessoas usa naturalmente. E, de quebra, passamos a ter uma melhor compreensão da sensacional complexidade e adaptabilidade do cérebro humano.

Referências científicas principais

1. DuBois, D., Ameis, S. H., Lai, M. C., Casanova, M. F., & Desarkar, P. (2016). Interoception in autism spectrum disorder: A review. International Journal of Developmental Neuroscience, 52, 104-111.

Artigo de revisão que examina especificamente como pessoas com autismo processam sinais internos do corpo. Os autores compilam evidências de múltiplos estudos mostrando que a dificuldade em perceber sensações corporais é uma característica comum no TEA, explicando por que muitas pessoas no espectro têm dificuldade em identificar fome, sede, dor e sinais de doença.

2. Garfinkel, S. N., Tiley, C., O’Keeffe, S., Harrison, N. A., Seth, A. K., & Critchley, H. D. (2016). Discrepancies between dimensions of interoception in autism: Implications for emotion and anxiety. Biological Psychology, 114, 117-126.

Este estudo investigou diretamente a consciência corporal em pessoas com autismo, descobrindo que, embora os sinais corporais sejam detectados em nível inconsciente (o corpo “sabe”), existe uma desconexão com a consciência (a pessoa não “sente”). Isso explica por que alguém pode estar doente sem perceber conscientemente.

3. Mul, C. L., Stagg, S. D., Herbelin, B., & Aspell, J. E. (2018). The feeling of me feeling for you: Interoception, alexithymia and empathy in autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, 48(9), 2953-2967.

Pesquisa que conecta as dificuldades de percepção corporal com outros aspectos do autismo. Os autores demonstram que pessoas com maior dificuldade em perceber seus próprios sinais corporais também têm mais dificuldade em identificar e nomear suas emoções, criando um quadro complexo que afeta múltiplas áreas da vida.

4. Fiene, L., & Brownlow, C. (2015). Investigating interoception and body awareness in adults with and without autism spectrum disorder. Autism Research, 8(6), 709-716.

Estudo que comparou diretamente a consciência corporal entre adultos com e sem autismo. Os resultados mostraram diferenças significativas na capacidade de detectar batimentos cardíacos e outros sinais corporais, confirmando que essas dificuldades persistem na vida adulta e não são simplesmente uma questão de aprendizado ou experiência.

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